“Ainda bem que não me deixei levar pelo julgamento alheio e fiz o que achava correto fazer”

Por uma mulher que faz história

Qual a maior dificuldade que você já passou por ser mulher? Não sei se podemos definir como uma “dificuldade”, mas lembro de algumas situações...

Houve uma época em que estávamos (eu e meu marido) negociando a compra de um apartamento, e eu estava à frente das negociações com a construtora.

Um dia, meu sogro chamou meu marido para conversar, à sós. Ele estava muito ofendido porque encontrou com o dono da construtora com a qual eu estava negociando, e o homem disse: “Ah, o seu filho é o marido da Mariana*?”.

Meu sogro, ficou escandalizado com o comentário, e chamou atenção do meu marido, afinal, eu é que deveria ser tratada como “A ESPOSA DO FULANO”, e não o contrário. Até hoje brincamos com isso, quando por qualquer razão ele diz “ela é minha mulher”, logo na sequência corrige e diz “eu sou o marido dela”. Virou nossa piada interna.

Pode parecer uma questão boba de semântica, mas de certa forma reflete um machismo velado, através do qual se define que a mulher é propriedade do marido, quando na verdade as relações são, ou deveriam ser, igualitárias, sem propriedade de um ou de outro.

Ainda, quando meus filhos eram pequenos, 2 e 5 anos respectivamente, fui convidada a participar de um projeto profissional, com duração de 1 ano, onde eu ficava em outra cidade de segunda à sexta-feira, e retornava para casa somente aos finais de semana.

Aceitei o convite, pois era um movimento importante para minha carreira, e meu marido cuidava sozinho das crianças durante a semana.

Enfrentei muitas críticas, tanto da família, quanto de amigas. "Mas você vai deixar as crianças sozinhas a semana toda? Você é louca!". Fora os mil bochichos nas reuniões de família sobre eu ser uma mãe desnaturada e inconsequente. Apostavam inclusive que nosso casamento não iria durar, pois "onde já se viu, uma mulher que deixa tudo por conta do marido?"

Pois bem, o período em que fiquei neste projeto foi um tempo extremamente proveitoso para fortalecer os laços entre o pai e os filhos. Ambos cresceram saudáveis e absolutamente sem nenhum trauma. E a relação familiar e a divisão de tarefas ficou muito mais equilibrada a partir desta experiência.

Ainda bem que não me deixei levar pelo julgamento alheio e fiz o que achava correto fazer.

*o nome foi alterado para garantir o anonimato