“Eu havia entendido que ser mulher é, antes de tudo, coragem”

Por Karina Sgarbi

Fernanda apareceu num fim de manhã de um dia de semana, em 2014, na redação do jornal em que eu trabalhava. Estava transtornada, mais do que o normal. A vida nunca foi fácil para ela e, naquele dia, parecia estar ainda mais difícil. Ela veio pedir ajuda. Por uma sorte que não sei a quem creditar – destino, buda, deus, tanto faz – eu estava na empresa na hora em que ela chegou. Era dezembro, fazia calor em Novo Hamburgo (RS), eu finalizava um texto antes de sair para o almoço. Meu ramal tocou e a situação toda era comum: alguém estava na recepção pedindo ajuda.

Peguei bloquinho e caneta e fui ver do que se tratava. Quando abri a porta, me assustei. Era a Fernanda, a mesma que, dois meses antes, havia me cedido a entrevista mais marcante (até então) da minha pequena carreira, para uma reportagem sobre violência contra a mulher. Ela não me reconheceu. Sentamos numa salinha de cadeiras vermelhas e mesa redonda, cercada por duas paredes brancas e outras duas de vidro. Ela contou, novamente, a sua história para mim. A filha pequena, de seis anos, tinha pedido ajuda a para escrever uma cartinha ao papai Noel. Queria material escolar e uma Peppa Pig. Fernanda não tinha dinheiro, não tinha emprego, não tinha coragem de dizer à menina que o pedido não seria atendido.

Anotei tudo, incluindo o número de telefone dela. Prometi que iria ajudar. Ela falava de forma confusa, dizia que queria dar à filha os cadernos e lápis de cor, além de uma mochila, mas que não tinha dinheiro. Chorou, a abracei. O aluguel estava atrasado, também. O dono queria despejá-la.

Fernanda morava, na época, em um bairro distante de onde ficava o jornal. Havia vindo a pé até ali. Mais de uma hora caminhando. Me perguntou que direção seguir, na hora de ir embora. Dei a ela os únicos dez reais que eu tinha na carteira, mostrei o ponto de ônibus, expliquei o que ela precisava fazer para retornar com segurança à sua casa. Ela falou que não sabia como tinha acabado na minha frente, no jornal. Disse que algo dizia para ela para vir ali. Ainda bem.

Antes de ir, perguntei se ela não havia me reconhecido. Me olhou no fundo dos meus olhos castanhos e disse que não. Tentei refrescar a memória dela, mas não tive sucesso. A conheci numa tarde de outubro num centro de atendimento a mulheres vítimas de violência doméstica. Por intermédio de uma assistente social, ela aceitou contar a sua história, sem ser identificada. Foram vários socos na minha cabeça, de uma só vez. Fernanda, ainda menina, foi mandada embora de casa pelo pai bêbado. A mãe doente não conseguia cuidar da pequena de nove ou dez anos. Uma irmã a acolheu, parecia a solução, tudo ficaria bem. À exceção do cunhado que passou a abusar sexualmente dela. De uma criança. De quem todos deviam proteger.

Cansada da violência, fugiu, aos 12 anos. Morou na rua, usou drogas, começou a se prostituir. Aos 16, engravidou. A família do pai ficou com o bebê. Ela voltou para a rua. Casou-se, teve outros quatro filhos. O último deles é a menininha dessa história. Sonhava em viver na família que não teve quando criança. Não conseguiu. Foi atropelada e por isso tem um problema no braço e uma certa confusão mental. Dia e noite, apanhava do marido. Socos, chutes, estupros. Na frente dos filhos. No último deles, acordou com o corpo caído no chão da cozinha, tentando lembrar o que havia acontecido. Um golpe na cabeça a deixou desmaiada. Quando conseguiu levantar, chamou uma vizinha e a polícia. Lei Maria da Penha, ainda bem.

Depois que ela saiu, comecei a fazer contatos com a prefeitura, checando se ela estava inclusa em programas habitacionais e de emprego. Disseram que ela tinha de esperar, como todos. Ignoraram a urgência mesmo diante do meu pedido insistente. Que impotentes somos, afinal. Mas resolvi fazer a única coisa que poderia ser feita: juntei trocados com minha mãe, comprei mochila, cadernos, lápis, tudo novo, tudo bonito, tudo para uma menina e sua mãe acreditarem nas pessoas, uma vez que fosse. Minha sobrinha, à época com quatro anos, tinha uma coleção com nove bonecos de pelúcia da Peppa Pig e seus amigos. Ela não brincava muito com eles. Perguntei se poderia dar todos eles a uma criança que iria ficar muito feliz e ela disse que sim. Amor e doação se ensinam desde cedo.

Liguei para a Fernanda, fui até a casa dela com os presentes. Naquele fim de tarde, também quente, a menina não estava em casa. Havia sido levada para a moradia da avó, perto do pai, e Fernanda era proibida de chegar lá, para evitar brigas. Ela tinha medo de ser despejada por não pagar o aluguel, por não conseguir emprego, e mandou a menina para lá. Não queria que ela vivesse na rua.

Me pediu ajuda para ver a pequena, dei carona a ela. Entramos numa vila, esperamos na calçada até que alguém trouxesse a menina. Ela ficou feliz com os presentes, a mãe chorava ao ver a filha ter o pedido atendido. Dias depois ganhei um prêmio de jornalismo com a matéria onde contei a história de Fernanda. Dei a ela metade, e um pouco mais, do dinheiro que recebi pelo reconhecimento. Nunca me fez falta, sempre foi a decisão certa. Sei que não resolvi os problemas todos, mas ajudei a melhorar, um pouco, a vida dela. A gente tem que fazer o que pode, como pode. O mundo não é bom para todo mundo, mas se olhamos para o lado um instantinho apenas, tudo fica melhor.

Antes de viver essa história, eu era uma jornalista de 24 anos. Nunca tinha parado para pensar na violência a que somos expostas todos os dias, não imaginava que homens pudessem ser tão cruéis, tão imbecis, nem que oito mulheres por hora eram agredidas no meu estado – isso em casos registrados, o número real deve ser bem maior. Precisei ver isso na estatística da Secretaria de Segurança Pública. Na palavra de sociólogas, advogadas, da própria Maria da Penha que também foi minha entrevistada. E pela história da Fernanda, é claro.

Embora eu jamais possa mensurar com perfeição, o sofrimento dela foi traduzido em palavras por mim, mas já uma nova repórter, uma nova eu. Não era mais a jornalista de 24 anos. Era mulher. Afinal, eu havia me tornado mulher. Eu havia entendido que ser mulher é, antes de tudo, coragem. E, hoje, sigo contando as histórias de todas as Fernandas que encontro, reunindo estatísticas e defendendo pautas que ajudem a elas, a mim, a nós mulheres de todos os lugares e de todas as cores e idades. Juntas somos mais fortes.