“Cortei o cabelo em casa, sozinha, bem curtinho. Pode parecer bobo, mas representou toda minha dor indo embora e um novo começo nascendo”

Por Priscila Santana

Eu tinha mais ou menos 12 anos quando me percebi completamente diferente e distante dos padrões de beleza. Eu tinha acabado de ter minha primeira menstruação e foi um dos momentos mais marcantes para mim, eu era uma menina que brincava de cozinha mágica e Barbie e de repente ganhei seios, e uma visita mensal indesejada.

Com esse fato minha mãe se tornou dura e também mais rígida. A partir daquele momento eu tinha que manter distância de todos os meninos da face da terra, afinal eu tinha a possibilidade de engravidar. Além disso, tinha a questão do meu corpo estar bruscamente mudando, e eu não ter o menor controle. Minha mãe agia como se todos os meninos tivessem interesse em mim e me controlava em tudo que ela podia. Imagina agora a confusão na cabeça de uma pré-adolescente que está descobrindo tudo de uma vez. Que sente que não se encaixa, que não entende seu corpo, que não entende nada.

Nesse meio tempo entrei em guerra contra o meu cabelo, que eu já alisava desde dos 8 anos de idade. Começou com pequenos relaxamentos, até que me fizerem crer que o liso era mais incrível. Daí eu passei a ser escrava da escova e da chapinha, os meus colegas de sala me chamavam de capacetão, porque depois de um tempo meu cabelo inchava e, quando tentei usar cacheado, um garoto falou que meu cabelo parecia um ninho. Eu não falei nada na hora, mas depois chorei. Eu só queria ser aceita, eu só queria alguém que me entendesse.

Eu não tinha esse alguém. Minha mãe, depois da visita da menstruação, se tornou uma militante antes homens, anti-adolescentes na verdade, anti-adolescente engravidadores de meninas inocentes. Como crescer com toda essa confusão na cabeça? Como crescer se a única coisa que eu queria era voltar a brincar de bonecas e não ser vista pelos meninos, nem por ninguém que pudesse me ferir mais do que eu estava ferida? Tinha dias que tudo doía e eu não queria ir pra escola de jeito de nenhum. Não queria ver aquelas pessoas, eu queria sumir. Minha alegria era ir ao salão e ver o volume do meu cabelo sumir, não importava qual química eu passasse, eu queria me encaixar e, depois, conforme o tempo passou, queria ser vista como alguém legal e bonita pelos meninos. Mas ninguém te nota quando sua autoestima está no chão.

Tudo começou a mudar quando comecei a ler as revistas femininas, na época não tinha tanta representatividade, nem tinham tantas negras cacheadas, mas tinham mulheres que eu passei admirar. Foi nas revistas que passei admirar a moda, e então passei a pesquisar ícones e pessoas incríveis que haviam sido referencias em suas épocas. Aquilo me alimentava, eu adorava ler as histórias da Gisele, por exemplo, e ver quantos “nãos” ela tinha recebido. Amei conhecer a mulher que é minha musa até hoje, Audrey Hepburn.

Quando as redes sociais passaram a ser algo mais cotidiano eu fui me encontrando. Encontrei pessoas que tinham gostos parecidos com os meus. Eu passei a me olhar e ver que eu tinha qualidades incríveis, passei a aceitar que eu podia errar mas também podia acertar, aprender. Entendi que chorar não é completamente ruim. Fui me conhecendo, e o que antes era de fora pra dentro, através das revistas e referências externas, passou a ser de dentro pra fora.

Meus gostos, minhas opiniões, meu ponto de vista a respeito da vida, passei a olhar pra mim e percebi que estava pronta pra voltar a ser cacheada, ou pelo menos descobrir como meu cabelo era de verdade.

Cortei o cabelo em casa, sozinha, bem curtinho. Pode parecer bobo, mas representou toda minha dor indo embora e um novo começo nascendo. Praticamente todo mundo criticou, ou praticamente todo mundo que eu conhecia. Todo o meu mundo me olhou feio, mas eu estava segura, confiante e a medida que ia crescendo as pessoas começaram a elogiar, não só o cabelo, mas a nova Priscila que ia nascendo, segura, confiante, amada - principalmente por ela mesma.

O melhor, é que era só o começo de umas das milhões de transformações que a vida estava me proporcionando. Um cabelo não muda nada, mas toda representatividade que ele tem muda tudo, toda história por trás, muda tudo sim. Hoje, eu poderia continuar alisando e ter tidos experiências de crescimento e empoderamento de outras maneiras, mas foi minha vontade de descobrir minha essência que me fez chegar até aqui e me tornar alguém de quem eu tenho orgulho, olhar para aquela menina de 12 anos e falar: você já era incrível, só não sabia.