“Aceitar o ato de me apaixonar pela minha melhor amiga foi um dos passos mais importantes da minha vida”

Por uma mulher que faz história

Na leitura de um livro que tem acrescentado muito em uma autodesconstrução diária, tenho me encontrado muito. O livro se chama "A mãe de todas as perguntas - reflexões sobre os novos feminismos", de Rebecca Solnit. Sinceramente, não lembro onde peguei a indicação, mas ele mostra em cada página reflexões que sempre levanto, como essa, que muito me cativou:

"As perguntas sobre a felicidade geralmente pressupõem que sabemos como deve ser uma vida feliz. Muitas vezes se descreve a felicidade como algo resultante de uma longa fileira de coisas - casamento, prole, bens próprios, experiências eróticas -, embora baste um milionésimo de segundo para nos lembrarmos de um monte de gente que tem isso tudo e mesmo assim é infeliz (...). Talvez, o problema seja literário: recebemos um roteiro único sobre o que é ter uma boa vida, mesmo que muitos que seguem fiéis ao roteiro tenham uma vida ruim. Falamos como se existisse um único enredo bom e um único final feliz, embora as inúmeras formas que uma vida pode assumir floresçam - e murchem - ao nosso redor."

Sim, é isso. Com essa reflexão em mente vou contar hoje um pouco sobre a minha desconstrução. Sobre quando cai em mim e percebi que não era uma princesa da Disney da vida real. Sou filha única, vinda de pais conservadores. Sempre fui curiosa e cheia de vontade de descobrir a vida. Mas minha mãe, sempre muito rígida, me privava de muitas coisas (uma proteção que em muito me prejudicou também). E quando abri as asas, rapaz... aí a vida começou de verdade. Mas não quero contar dessas descobertas comuns. Quero falar sobre o ápice da minha descoberta como mulher. Sim, da descoberta do poder que carrego no meu cérebro, coração e sexo. O que me faz sentir ainda mais mulher.

Em 2015, me apaixonei. Mas não era mais uma das aventuras corriqueiras, das quais entrava e saia sem a mínima dor na consciência (não permitia me apegar, gostar, não queria essa ''fábula'' para minha vida. Achava que era coisa de gente boba). Só que foi estranho demais, pois me apaixonei por uma das minhas melhores amigas.

Oi? O que estava acontecendo? EU, hétero com H maiúsculo, cheia de convicções sobre a minha sexualidade, de casos, affairs, bofes, etc... Como poderia? Até hoje, confesso que não sei. Só me permiti sentir. E continuo, depois de dois anos, sentindo, experimentando, pensando, gostando, me amando e a amando.

Amar uma mulher é muito mais do que amar a si mesma, é se descobrir de verdade em outro corpo e coração, mas ainda mais profundamente. Conseguir explicar? É difícil, mas é delicioso. Essa escolha de aceitar o ato de me apaixonar pela minha melhor amiga, falar para ela, e, hoje, viver com ela, foi um dos passos mais importantes da minha vida.

Tive que me abster do orgulho, de muitas convenções sociais, do medo. E o medo, constante, de ser descoberta (no início), de ser execrada pela família, de ser expulsa de meios sociais... tudo me abalou bastante. Consegui abrigo e respostas para muitas perguntas em livros. Pessoas não bastaram, e muitas vezes ouvir dos amigos para "ter paciência" é algo que inflamava ainda mais a situação.

Ouvi da minha própria mãe (religiosa): "Deus criou o homem e a mulher para que se completassem", do meu pai: "Esqueça essa história toda, ninguém da família precisa saber dessas suas coisas aí", de muitos homens machistas: "Nossa! É verdade que você e fulana tem um caso?!", e de muitas pessoas próximas (inclusive mulheres): "Você ama a fulana?! Logo você, que deu para todo mundo, imagina se não vai traí-la logo mais". Mas tudo isso só me fez mais forte e convicta. Convicta do ''mulherão da porra que eu sou", da força que carrego - não só nas minhas entranhas, mas também na minha voz perante a sociedade.

Minha namorada é a melhor pessoa que eu tive o privilégio de dividir a vida. Encho a boca para dizer que hoje tenho uma companheira, uma parceira, um amor. Temos diferenças, brigamos, somos tudo o que mulheres carregadas de sentimentos são, o que casais são, mas temos a diferença de ter a força que o amor nutre.

Escrever esse texto representa um grito: foi preciso reviver sentimentos, desatar ''nós'' que ainda não foram bem desfeitos, reviver o desafeto da família e a ausência deles. Mesmo assim, para mim, essa é uma história de vitória. Com toda certeza hoje eu sou melhor que ontem e carrego comigo um amor que me dá a certeza que me apaixonar por uma mulher foi um dos momentos mais marcantes da minha existência.

É difícil viu?! Infelizmente, mesmo em tempos mais ''modernos e tolerantes", ainda há muita gente que não entende nada sobre o amor. Mas, ainda no livro de Rebecca, encontro um alento: "A luta de libertação consiste, em parte, em criar condições para que os silenciados falem e sejam ouvidos". A luta não terminou, ela segue!