"Hoje, ao escrever sobre esse fato eu me liberto dessa gaiola imaginária"

Por uma mulher que faz história

As descobertas são sempre recheadas de sentimentos inesperados. Ora felizes, ora tristes. Na infância, especialmente, deveriam ser todos alegres, mas nem sempre é assim. Descobrir que seu primeiro herói é o vilão da história, da sua história, é um daqueles baques que perduram a vida toda. Por mais horas e anos de terapias – sim, terapias no plural mesmo, foram várias formas –, essa descoberta é dolorosa e faz você tomar decisões que nem sempre são as melhores para a sua vida.

Levei muito tempo para descobrir, de fato, a vilania. A princípio ela era disfarçada de carinho e causava incompreensão, atordoamento. Nem sei exatamente o que sentia quando notava um gesto mais incomum. Também, aos 8, 9, 10 anos é difícil entender que um simples gesto paterno possa ter intenções além das esperadas por uma criança. Mas eram.

Até que um dia, os gestos sutis aos olhos de todos da casa, passaram a ser mais incisivos, mas, claro, sem nenhum observador por perto. Um passarinho preso a uma gaiola imaginária, que se espreme no canto (da cama), morrendo de medo, sem saber como escapar, sem entender o que estava acontecendo, apenas fingindo estar dormindo para não ser cúmplice do ato... Esta talvez seja a mais leve analogia que encontrei ao longo desses anos todos para expressar a terrível experiência de ser abusada pelo meu pai. Custei a entender. Na verdade, foram muitos anos. O trauma daquela época foi enterrado em minha mente por longos anos. Tinha algumas aversões a certos gestos masculinos, mas não entendia. O simples fato de algum namorado respirar perto de meu ouvido me deixava irritada. Mal sabia eu que era uma lembrança daquele dia infernal.

Somente com o tempo os meandros daquele dia se encaixaram. Regressão foi um caminho. Resolvi? Não! Ao contrário. A lembrança reavivada passou a ser ainda mais cruel. E cruel num sentido ainda mais potencializado. Pois embora a relação com o sujeito do ato não fosse afetiva, nem de perto a de uma filha com um pai, ela sempre existiu.

A tentativa em minha inconsciência era a de resgatar um pai que nunca havia existido. O herói que eu precisava nos primeiros anos. Era como um suplício. Um grito de dor e de raiva, mas que exalava o de dar uma chance. Tola presunção minha. Quem eu era para dar mais uma chance a alguém? E dei, mesmo sendo apenas eu. E não é que ele recusou. Sim, pasmem! Sem a mesma intensidade, sem a mesma frequência, a história se repetiu. Não comigo, mas com minha filha.

E aí, a loucura vai ao seu grau máximo. A luta entre acreditar que tudo foi um engano (ele relatou com detalhes o fato e que havia sido um grande mal entendido) e que realmente ele havia sido o mesmo vilão de sempre é dilacerante. Me senti impotente, uma besta, um flagelo humano. Talvez a força de um opressor seja tão descomunal que ela imobiliza até mesmo o mais forte guerreiro. Não fui o Davi que queria ter sido. Não venci o grande inimigo. Golias venceu.

A Justiça o isentou, mas eu o condenei. Não proferi a sentença, mas o condenei. Na prática, eu me condenei e a minha filha também. Resultados de uma sociedade em que não enxerga de fato seus vilões. E o silêncio é o caminho que temos diante de nossas vidas. Eu e minha filha enxergamos, mas nos tornamos as vilãs. Foi assim há mais de 30 anos, foi assim agora.

As terapias são o paliativo da dor, que ora se mostra intensa, ora se mostra branda. Há ainda momentos em que se esconde. Como se fosse um escudo para não passar a linha tênue entre a sanidade e a loucura. Ou talvez seja essa loucura que me mantém estranhamente sã. Quanto à minha filha, tento ser o herói que eu queria para mim... Apenas tento, pois sei que é preciso ser mais forte do que sou. É preciso ter a coragem que há muito se perdeu... A coragem que se esvaiu naquela gaiola imaginável.

Depositei toda a minha coragem, força, em outras vertentes da vida. Fugi de uma realidade que não queria para mim, embora ela sempre me ronde. Recusei encarar a posição de vítima. De vítima bastava aquela experiência e não suportava a ideia de ser vista como a vilã. Sim, nesses casos a vítima assume invariavelmente o papel de culpada. Claro que essa decisão teve ônus e bônus. Foi uma escolha, não exatamente pensada, mas a possível para quem se sentia numa gaiola. Hoje, ao escrever sobre esse fato eu me liberto dessa gaiola imaginária. Assim, posso voar sem o sentimento de culpa. Posso assumir meu papel de vítima, mas de forma simples, clara, sem julgamentos.