“[o avô] fez uma única pergunta, direta, sem rodeios, dirigida ao neto: “De que raça ela é?”

Por uma mulher que faz história

Conheci meu marido na faculdade, estávamos namorando há uns 2 anos, eu já tinha sido apresentada para a mãe o os irmãos dele, mas ainda não conhecia os tios e avós que moravam em outra cidade.

Num feriado prolongado combinamos de viajar para a tal cidade, onde eu iria conhecer o restante da família, tios, primos, avós, etc... e sempre rola aquela expectativa de como vai ser, né? Lembro que eu estava super ansiosa, afinal o primeiro contato com a família do outro em geral é um momento tenso, há uma curiosidade de saber se as pessoas são legais, se vão gostar de você, se vão te receber bem.

Isso aconteceu há muitos anos atrás, mas eu jamais esqueci o momento exato em que fui apresentada para o seu avô. Ele era um homem de modos rudes, falava alto. Olhou-me de cima a baixo, e fez uma única pergunta, direta, sem rodeios, dirigida ao neto: “De que raça ela é?”. Fiquei atônita, não sabia o que falar e nem o que fazer.

Meu namorado visivelmente sem graça respondeu "Ela é brasileira", e o avô, que era imigrante, descendente de alemães, concluiu com toda a naturalidade: "Ah, então ela é pelo duro." deu uma risadinha de deboche e seguiu normalmente a conversa para outros tópicos.

Depois, a sós com meu namorado eu procurei saber o que significava aquela expresão. Ele, todo constrangido, pediu desculpas pelo avô e explicou que "pelo duro" era uma expressão utilizada para definir o gado sem raça, bois e vacas que não tem porte ou padrão definido, sem linhagem nobre.

Estranhamente meu sentimento não foi de raiva, foi de vergonha e humilhação. Eu era jovem, insegura, estava em território estranho. Fiquei calada, engoli em seco, sentindo o gosto amargo da discriminação.

Teve a ver com xenofobia sim, mas teve mais a ver com o fato de eu ser mulher. Fui avaliada como se avalia uma vaca, uma mercadoria... "será que ela é boa o suficiente, será que ela é adequada para pertencer à nossa família?"

Enquanto escrevo sobre isso, fico pensando em quantas mulheres no mundo passam por situações semelhantes, em que somos avaliadas, taxadas e rotuladas como se fossemos produtos. Percebo também que quando compartilhamos nossas histórias ficamos menos sós, nos fortalecemos mutuamente e criamos coragem para soltar a nossa voz.

Se ser pelo duro é não se encaixar aos padrões definidos pela sociedade, sim, sou pêlo duro e com muito orgulho!