“Enquanto experimentava aquela sensação de liberdade, lembrei muito de uma outra estreia: a primeira vez em que me senti diferente por ter nascido mulher”

Por Marcela Monteiro

As atrizes francesas que assinaram aquele manifesto em oposição ao #metoo me fizeram lembrar do dia em que fiz topless pela primeira vez, coincidentemente, foi numa praia do sul da França, onde a maioria das mulheres anda com os seios a mostra. Enquanto experimentava aquela sensação de liberdade, lembrei muito de uma outra estreia: a primeira vez em que me senti diferente por ter nascido mulher.

Foi em algum momento no começo dos anos 1990. Eu ainda morava no Rio de Janeiro e era um dia muito quente. Lembro de estar assistindo televisão no quarto, quando meu irmão mais velho passou desfilando no corredor, todo fresquinho, sem camiseta. Do auge dos meus três ou quatro anos de idade, tive uma reação bem simples: arranquei a blusa que estava vestindo e fiquei lá curtindo o ventinho nas axilas, até que minha mãe apareceu e cortou o meu barato: "Filha, por que você tirou a camisa?", "Porque eu vi o Felippe sem", "O Felippe é menino, ele pode, você não".

Essa é a primeira lembrança que eu tenho sobre ser mulher. Depois vieram muitas outras, algumas mais doloridas, outras menos, mas todas permeadas por um sentimento de naturalidade. Era como as coisas eram. A vida às vezes é difícil e a gente vai superando os obstáculos sem pensar muito no que eles significam. Como dizia o manifesto das francesas: "Uma mulher pode zelar para que seu salário seja igual a de um homem, mas não pode se sentir traumatizada para sempre porque alguém se esfregou nela no metrô". Existe um limite cultural para a vitimização e o melhor a fazer é sempre seguir em frente.

Sou uma pessoa que aprende rápido, me orgulho disso. E aprendi rapidinho o que significa ser mulher nesse mundo. Aceitei tudo isso como parte da cultura em que estava inserida e, sinceramente, não acreditava que havia submissão nesse jogo, porque, afinal de contas, eu tinha plena consciência dele. As regras eram claras e, para mim, ser uma "mulher forte" era poder escolher se eu queria respeitá-las ou não. "Pensamos que é melhor criar nossas filhas de modo que sejam informadas e conscientes o suficiente para poderem viver plenamente suas vidas sem se deixar intimidar ou culpar", afirmaram as francesas. E eu tinha certeza que comigo era assim: eu podia fazer o que quisesse, bastava ser forte o suficiente.

Por 23 anos vivi acreditando que o poder da minha escolha era maior e mais interessante do que qualquer regra social boba. Eu podia falar "não". Não podia? E quando eu me calava, não era porque o mundo era cruel, era porque eu era fraca. Seja em uma reunião de trabalho, festa ou mesa de bar, essa era a minha verdade: eu posso escolher e, se por algum motivo eu não exerço esse direito, é porque eu preciso endurecer mais.

"Fulana é muito boa, ela sabe se impor nas reuniões, coloca o pau na mesa mesmo". Toda vez que eu ouvia isso, minha primeira reação era querer aprender a ser igual à fulana. Falar alto, ser mais incisiva, colocar o pau que eu não carrego na mesa e finalmente ser respeitada, ser a "mulher forte" que eu sabia que poderia ser. Em nenhum momento eu questionava a necessidade de ter esses atributos para ser reconhecida. O mundo era o mundo, eu que tinha que me adaptar. Todos temos, em algum grau, é a vida.

Mas aí eu conheci outras mulheres – elas sabem quem são –, pessoas que eu respeitava profundamente, considerava fortes e independentes e, entre uma conversa e outra, vi que elas sofriam as mesmas coisas que eu. Elas, tão maduras e donas de si, sentiam na pele a mesma angústia que eu, que me considerava tão fraca. Essas mulheres me ensinaram a dar nome às coisas, elas me mostraram que eu não estava sozinha e que os sentimentos que há muito eu considerava fraqueza tinham outros nomes e a mesma origem estrutural: o machismo.

Da ponta do pêlo da minha axila ao último óvulo do meu útero, machismo é essa tentativa insistente da sociedade de fazer com que eu acredite que, no fundo, as coisas só acontecem comigo, porque eu não sou forte o suficiente. Entender isso fez com que eu refletisse sobre diversos acontecimentos da minha vida, inúmeras situações nas quais eu simplesmente não fui capaz de impor a minha vontade. Naquelas circunstâncias eu não tinha como ter dito "não" e isso tem pouco ou quase nada a ver com força. Tem a ver com aquela sensação constante de que a errada é você.

Toda vez que leio um manifesto como o das atrizes francesas ou então entrevistas e textos que falam de um tal "feminismo radical majoritário", eu fico triste. Não é sobre isso. E insistir nessa polarização é só cruel mesmo, porque talvez esteja impedindo diversas meninas de entenderem que elas não precisam ser mais fortes do que já são. Na verdade, o mundo que precisa urgentemente repensar a noção de força.

Eu não quero aprender a falar mais alto, eu quero ser valorizada pela minha capacidade de ouvir. Eu não quero criar as minhas filhas para que elas não se deixem "intimidar ou culpar", eu quero um mundo completamente livre de culpa e intimidação. Eu não quero que os homens desapareçam, eu quero que eles se sintam à vontade com o feminino que existe dentro deles, da mesma forma como eu quero me sentir cada vez mais confortável com o masculino que existe em mim.

Ano passado, aos 27 anos, enquanto fazia meu primeiro topless, senti o vento, o sal e o sol na pele como nunca havia sentido. O gosto translúcido da liberdade pulsava na minha boca. Lembrei muito daquela menina de três ou quatro anos de idade que, no calor do Rio de Janeiro, ousou fazer o mais óbvio, o mais ingênuo. Tão forte essa menina, tão delicada. Tenho muito para aprender com ela, porque a igualdade não é apenas sobre mulheres fortes, é também sobre a força de uma menina que simplesmente existe. E precisamos todos de espaço para simplesmente existir.