“O vazio que eu sentia virou um chamado, um propósito: por mais mulheres na área de TI”

Por Silvia Coelho

De mãe em tempo integral para #serumamulheremtech

Em 2006, grávida do segundo filho, decidi sair do emprego. Eu sentia uma culpa enorme em deixar a mais velha o dia inteiro na creche. Eu queria estar mais presente na vida dela, não apenas no início da manhã até sair para o trabalho. Muitas vezes não a colocava na cama, não lia uma estória antes de dormir, não ouvia sua tagarelice durante o jantar. Não estava participando do crescimento dela. Não estava sendo a mãe que eu queria ser.

Trabalhava como engenheira de desenvolvimento de software para celulares. Era uma profissional dedicada e muito comprometida. Sempre a primeira chegar. Mas ninguém valorizava muito. A maioria chegava bem tarde e ficava depois do horário. Eu não podia me dar esse “luxo”. Saía mais cedo correndo pra chegar em casa e ver minha filha. Fugia das reuniões de fim de expediente e dos mutirões à noite. Não tinha tanta disponibilidade para a empresa. Não estava sendo a funcionária “produtiva” que eu poderia.

O segundo filho foi planejado. Interromper a carreira profissional nem tanto. Retorno ao trabalho? Não parei para pensar no assunto! E foi assim que a cdf da turma, a aluna nota 10, virou mãe em tempo integral. Passados 9 anos, posso dizer que aprendi mais do que ensinei. Desenvolvi muitas habilidades e competências que talvez nenhuma outra experiência me dariam. Costumo dizer que tenho doutorado (filha mais velha) e pós-doutorado (filho caçula) na Universidade do Lar. Cuidar da casa, do marido, dos filhos, não é nada fácil. Exige muita dedicação e esforço diariamente. É um trabalho que ninguém vê, ninguém mede, ninguém dá o devido valor. Não é remunerado, não é padronizado, não existe fórmula, nem certo e errado. Existe a vontade de fazer o melhor e, muitas vezes, abrir mão dos próprios sonhos. Foi o que fiz por um tempo. Agora tenho outros planos. Meus filhos cresceram e já não dependem tanto de mim. São crianças fortes, inteligentes e seguras. Me sinto realizada e muito honrada por ter ficado perto deles por todo esse período.

De uns tempos pra cá, comecei a sentir um vazio muito grande, uma inquietação, algo estava faltando na minha vida. Ainda queria mais dela e não sabia o quê exatamente. Comecei a conversar com as pessoas, chorar mágoas, me lamentar por ter “perdido” tempo. Saí em busca de autoconhecimento, meditação, eneagrama, constelação familiar... Ao mesmo tempo, participei de eventos, workshops, encontros em grupos de mulheres etc. Nessa busca, conheci iniciativas que visavam capacitar mulheres para atuar nas áreas de TI como Programaria e Reprograma.

Fiquei completamente chocada ao me deparar com dados alarmantes. No Brasil, somente 15% dos alunos matriculados em cursos de ciência da computação e engenharia são mulheres. A maioria delas desistem ainda no primeiro ano, segundo a Sociedade Brasileira de Computação. Estamos em 2017 e a quantidade de mulheres nas áreas de tecnologia nas empresas ainda é muito baixa. Em média, 30% dos funcionários das maiores empresas de tecnologia do mundo (Google, Facebook, Microsoft e Apple) são mulheres. Por outro lado, apenas 16% dos empregados da área de TI do Facebook, por exemplo, são mulheres, segundo essa matéria da Exame.

Como engenheira e tendo estudado com mulheres inteligentíssimas que construíram carreiras brilhantes na área, não foi fácil encarar a pouca presença de mulheres nos cursos de engenharia e computação. Isso é andar na contramão da transformação digital e da construção de uma sociedade mais igualitária e diversa.

O vazio que eu sentia virou um chamado, um propósito: por mais mulheres na área de TI. Para fazer a minha parte, voltei a estudar. Concluí o curso da Reprograma (http://reprograma.com.br) , que é uma iniciativa de capacitação de mulheres em desenvolvimento front-end. Estou cursando Senai Code Experience IoT. Participei do meu primeiro Hackathon. Além disso, administro o grupo Elas Programam que dá apoio a mulheres que querem aprender a programar. Sei que ainda tenho muito pela frente. Sigo agora com uma certeza: quero levar comigo todas as mulheres que eu puder!

*Esse texto também foi publicado no Medium.