“Minha estante era composta por muitos autores homens, mas as mulheres que li marcaram a minha vida”

Por Aline Takaschima

Um dos primeiros livros que ganhei quando criança foi o de poemas para crianças da Cecília Meireles, Ou isto ou aquilo. Lembro que na época ainda não lia, mas me interessava pela sonoridade diferente daquelas histórias, as ilustrações e a melodia da minha tia lendo cada poesia repetidas vezes. A sua voz ressoava como ondas e aquecia o quarto, o meu coração e corpo. Enquanto ela estivesse ali, ao meu lado contando histórias, tudo estaria bem. Ganhei o presente um mês antes de completar 6 anos. Acho que é por isso que desde cedo eu associo as histórias e lembranças, minhas e dos outros, como companheiras que sempre estarão presentes.

Os verões da minha infância e adolescência foram marcados por temporadas longas na praia dos Ingleses, em Florianópolis. A internet era tecnologia distante, guardada em alguma lan house no meio do centrinho litorâneo apinhado de argentinos torrados de sol. Nesse canto do mundo onde toda a família se reunia não existia Facebook, Wi-Fi e nem mesmo TV a cabo. Eu alternava meus dias entre ir à praia e deitar na rede da casa do meu avô com um livrinho embaixo do braço.

Lembro que no verão de 2003 anotei em um diário da Capricho, a revista adolescente, todos os títulos que devorei no casa de madeira sustentada por cupins. Não entendia quase nada do que lia – os livros foram roubados da biblioteca do meu avô. Mas anotava a obra e o autor a medida que completava a leitura. Conheci Clarice Lispector nesta temporada. Ela era um enigma, uma bruxa incompreensível e sedutora, que me acompanhou na rede e na canga por muitos dias. A lista despretensiosa me deu ânimo para ler mais durante todo aquele ano e escrever os títulos naquela agenda colorida e brilhante, repleta de adesivos e marcadores.

Claro que desde que comecei a ler e ouvir histórias também me interessei por escritores. A verdade é que a minha estante era composta por muitos autores homens e poucas mulheres. Mas as mulheres que li marcaram a minha vida. Quando completei 18 anos me presenteei com Os Diários de Sylvia Plath, um compilado dos registros do cotidiano da escritora norte-americana. Terminei a leitura aos 20. Acompanhei a poeta nas tarefas ordinárias do dia a dia, suas impressões do mundo e as suas angústias. Em 2017 o número de autoras na minha pequena biblioteca particular aumentou. Aconteceu assim, de forma espontânea. Foi uma combinação: os ventos dessa nova onda feminista, a atriz Emma Watson e o seu clube virtual que incentiva a leitura de escritoras e essa parte de mim que estava se conhecendo na metrópole cinzenta e efervescente de São Paulo.

O ano passado começou com a escocesa Ali Smith e o seu romance Como ser as Duas Coisas. Vivi momentos de tormenta com uma mulher divorciada e apaixonada na obra da misteriosa Elena Ferrante, senti o peso das palavras de Rupi Kaur e acompanhei a vida de uma mulher negra e imigrante nos Estados Unidos com a nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie. Conheci um tanto de personagens inventados e também reais, como os retratados no livro sobre a Coreia do Norte, contado pela jornalista norte-americana Barbara Demick. E me surpreendi com Orlando, o poeta que viveu do século XVI até o século XX, transformou-se em mulher, apaixonou-se por homens e mulheres, vestiu-se com roupas de ambos os sexos e alfinetou a sociedade com comentários irônicos sobre a condição de ser mulher. O personagem foi criado por Virginia Woolf em 1928. Atual, não?

Terminei o ano com a lenda do Novo Jornalismo, a escritora Joan Didion. Ela contou uma porção de histórias de um modo intimista e sensível. Retratou a Califórnia dos anos 60 como ninguém. A Netflix estreou em outubro o documentário da escritora, Joan Didion: The Center Will Not Hold (Joan Didion: O Centro Cederá), dirigido pelo sobrinho da jornalista, o cineasta Griffin Dune. Joan perdeu o marido John Gregory Dunne e a filha Quintana Roo Dune e escreveu para expurgar a sua dor O Ano do Pensamento Mágico. Em uma de suas citações mais conhecidas, no livro O Álbum Branco, ela diz que "nós [escritores] contamos histórias para viver". Em 2018 a proposta é ler mais histórias para viver – principalmente aquelas escritas por mulheres, sair do universo da ficção e conhecer mais sobre o movimento feminista e a condição de ser mulher.

Janeiro começou com um manifesto chamado Women & Power, da professora inglesa Mary Beard. Ela cita diversos exemplos de como as nossas vozes foram silenciadas na literatura ocidental – o que na realidade só reflete o papel da mulher na sociedade em que vivemos. A escritora cita o clássico Odisseia, do grego Homero, escrito há quase 3 mil anos. Ele conta as viagens e aventuras de um principais heróis da guerra de Troia, Ulisses. Em um trecho da obra, Telemachus, filho de Ulisses e Penelope, entoa um canto no salão principal do palácio sobre as dificuldades dos heróis gregos. Sua mãe, então, pede para que ele cante algo mais alegre. Ao que ele responde em frente aos convidados: "Mãe volte para seus aposentos. Se concentre nas suas próprias tarefas: a escavação e o tear, e mantenha as mulheres trabalhando. Quanto às ordens, os homens irão cuidar disso. Eu é que mantenho as rédeas do poder nesta casa". Ela obedece e sai da sala. Mary Beard também exemplifica com histórias de Ovídio e Shakespeare e explica que, para uma mulher ser ouvida e respeitada historicamente ela deve possuir atributos masculinos. Um dos casos emblemáticos é a da rainha inglesa Elizabeth I que discursou para uma tropa em guerra com a Espanha, em 1588. A sua fala começa assim: "Eu sei que tenho o corpo de uma mulher fraca; mas eu tenho o coração e o estômago de um rei, e de um rei da Inglaterra também".

Quando li este trecho do livro, lembrei que no ano passado eu estava almoçando no bairro da Liberdade, em São Paulo e escutei um pedaço da conversa de duas mulheres da mesa ao lado. Uma delas certamente trabalhava em um ambiente bastante hostil, rodeado de homens. Em uma reunião, ela questionou um dos colegas de trabalho. Ao que ele respondeu: "Por acaso você acha que o seu pau é maior do que o de qualquer um dessa sala para falar uma coisa dessas?". E ela rebateu com voz grave: "Eu tenho um pau imaginário e ele é muito maior e mais poderoso do que qualquer um". O que indica que os procedimentos se repetem ao longo dos 3 mil anos de história. Para serem ouvidas e levadas a sério, as mulheres precisam se afirmar e impor sua autoridade.

Mary Beard conta que as mulheres possuem licença para falar em duas ocasiões: para debater os próprios direitos e exercer o papel de vítima. Ao longo da história poucas são aquelas que saíram deste escopo. Por isso é que ler mais mulheres também se revela uma atitude política. Se ontem elas eram silenciadas, hoje há mulheres falando e escrevendo sobre uma infinidade de temas. A partir das leituras é que comecei a entender aquela polêmica e certeira frase de Simone de Beauvoir, "não se nasce mulher, torna-se mulher". Por conta das leituras me identifiquei com as histórias das autoras e também vivenciei experiências que até então desconhecia com mulheres tão diferentes.

No Globo de Ouro deste ano, premiação dedicada aos profissionais de cinema, televisão, as mulheres eram as protagonistas do evento. Elas foram de preto em protesto aos assédios em Hollywood. Elisabeth Moss levou o prêmio de Melhor Atriz de Série Dramática, pelo seu trabalho na série The Handmaids Tale, baseado no romance distópico escrito pela canadense Margareth Atwood. Quando subiu ao palco para receber o prêmio, Moss disse: "Já não vivemos nos espaços em branco, nas bordas da impressão. Já não vivemos nas lacunas entre as histórias. Somos a história impressa e estamos escrevendo a história nós mesmas". Oprah, a primeira mulher negra a ganhar o prêmio pelo conjunto da obra, disse em discurso emocionante e histórico: "Eu estou especialmente orgulhosa e inspirada por todas as mulheres que se sentiram fortes o suficiente e empoderadas o suficiente para falar e compartilhar suas histórias pessoais. Cada um de nós nesta sala é celebrada por causa das histórias que contam, e este ano nós nos tornamos a história". Oprah e Elisabeth estão certas. As mulheres são e fazem histórias. E nós, leitores, multiplicamos e ecoamos as vozes femininas que por vezes se silenciaram e não encontram o seu espaço.