“Ali eu entendi que ser mãe é limpar toda a sujeira: de casa, da alma, dos outros”

Por Evelin Cáceres

Era algo simples: lavar a louça. Mas a situação, que com um simples detalhe de cena, tornou-se diferente, ficou ainda pior quando se transformou em um rio de sangue: um corte na minha barriga, eu, sozinha em casa, e um bebê de apenas dois quilos e três dias, dormindo no carrinho ao lado.

Minha mãe me disse que era assim: depois que nascemos, colocava a gente num carrinho e ia tomar banho, limpar a casa, dormir, ver televisão. Achei que era uma maravilhosa fórmula mágica que daria certo. Era só colocar o bebê ali.

Mas ele acordou. Berrando como alguém que tem dois quilos não poderia ser capaz de fazê-lo. E eu nunca tinha visto aquilo na vida. Eu, que já tinha cuidado do meu irmão, nove anos mais novo, acreditei que não poderia ser um bicho de sete cabeças.

Com sono, porque eu não dormia há 72 horas, entrei em desespero. Apertei o copo que estava lavando e cortei o dedo. Uma ferida descomunal rachou o meu mindinho.

Fui pegar um pano para enrolar na mão e lembrei que tinha um bebê chorando. [Eu o achei estranho desde que saiu de mim: não tinha o rosto que eu imaginava. No dia seguinte em que fomos para a casa, me olhou de uma maneira assustadora. Confesso que o deixei em cima da cama, quietinho, por cinco minutos e fui tomar água].

Sem saber o que fazer, imaginei que, como mãe, o correto era eu pegá-lo imediatamente no colo, mesmo que isso lhe custasse um banho de sangue, e só depois pedir ajuda. Mas a quem, se não tinha ninguém em casa? Ambos chorando - 50% dor e 50% desespero – nunca me senti tão sozinha na vida. Imaginei que ia desmaiar e que ele iria ficar ali, aos berros até alguém chegar.

Chorei ainda mais. Passei pelo espelho e estávamos cobertos de sangue. Eu imensamente grande e inchada. Ele, espantosamente pequeno. Até que o deixei em cima da cama, rasguei uma fralda no dente, amarrei meu dedo e o coloquei no peito. Ele parou de chorar e eu também, porque percebi que até ele já estava tranquilo.

Fiquei com vergonha. Tomei banho, dei banho nele, limpei minha ferida da cesariana. Limpei o chão da casa. E ali eu entendi que ser mãe é limpar toda a sujeira: de casa, da alma, dos outros. E se sentir infinitamente só.

Com o tempo passando e os hormônios do pós-parto sumindo [esse mito da maravilha da maternidade, cujo puerpério* se apresenta como um multimilionário abusador, mas que a humanidade só vê dele os iates], a gente percebe um sorriso naquele rosto estranho.

No outro dia, uma gargalhada. Depois, um aperto de mão no seu dedinho ferido. Um abraço. Um “mamãe”. E um “eu te amo, mamãe”, para coroar toda a beleza de ter um serzinho que saiu de você e hoje já está grande e forte pra caramba - assim como você, que nem chora mais quando ele cai no pranto.


* puerpério: período que decorre desde o parto até que os órgãos genitais e o estado geral da mulher voltem às condições anteriores à gestação.